Um Encontro de Amor

A história de pessoas que encontram na adoção o amor de seus filhos



A palavra adotar vem do latim “adoptare”, que significa escolher, perfilhar, dar o seu nome a, optar, ajuntar, escolher, desejar. Juridicamente a adoção é um processo legal e irreversível que transfere o poder familiar, dos pais biológicos, para uma família substituta quando forem esgotados todos os recursos oferecidos pela família biológica.


Muitos pais sonham em adotar uma criança, mas não sabem por onde começar esse processo. Segundo o coordenador do Ofício da Infância e Juventude Cesar Akira Cunha Fukassawa, em 2020 se tinha, num painel do Conselho Nacional de Justiça, um número de 5.239 crianças e adolescentes disponíveis para a adoção no país em paralelo a 37.855 pretendentes disponíveis a adotar. Ele explica que para o primeiro momento da adoção é muito importante iniciar os dois processos judiciais, antes dessa opção. “A primeira é a ação de habilitação à adoção. E a segunda é a ação de adoção. Na primeira ação a pessoa pretendente (solteira ou casada), deve formular um pedido perante o Juízo da Infância e Juventude do local onde reside ou, caso a cidade não possua Fórum, ao Juiz da Comarca a qual pertence sua cidade”.

Ele explica que essa habilitação passa por uma avaliação psicossocial e concordância do Ministério Público, onde é concedida por sentença judicial e, sendo positiva, colocará a pessoa pretendente na chamada 'fila de adoção'. “A fila pode ser de âmbito nacional, estadual ou municipal, a desejo da pessoa pretendente. O sistema de adoção é digital, controlado e fiscalizado pelo Conselho Nacional de Justiça. Não há burocracia nesse processo, mas as etapas iniciais tendem a demorar um pouco, em razão da quantidade de pedidos recebidos. Uma das etapas é o Curso Preparatório à Adoção, obrigatório para todos os pretendentes. Esse curso é criterioso e uma de suas fases é uma reunião em grupo com psicólogos e assistentes sociais do Judiciário. O tempo na fila à adoção é um ponto de maior desgaste para quem deseja adotar, vez que, dependendo do perfil da criança pretendida, chega-se a demorar de seis a oito anos para serem convocados à adoção. No entanto, com perfis mais abrangentes, já tivemos casos de adoção com menos de um ano de espera”.


A segunda ação, já havendo indicação de criança à pessoa pretendente, ou seja, já habilitado e vinculado a uma criança, é a formalização da adoção. César explica que se trata de um processo célere, vez que anteriormente já foram feitas as avaliações e a pessoa pretendente tem o aval para adotar. “Ainda assim, para ter a segurança de que o processo de vínculo entre criança e pretendente correu bem, demanda avaliação psicossocial e manifestação do Ministério Público. Considero o ato de adotar algo grandioso de generosidade, vez que a família acolherá em seu seio um novo integrante, que do outro lado aguarda alguém que lhe conceda esse espaço, sem o qual não poderá vivenciar o desenvolvimento integral de sua infância”.


O coordenador do Ofício da Infância e Juventude Cesar Akira Cunha Fukassawa


Reencontro

A cirurgiã-dentista Lilian Duran Lopes conta que sempre sonhou em adotar seu filho e explica que existe uma lista de documentos necessários para preencher no Fórum; dentre eles documentos pessoais e laudo médico. “Depois disso, passamos por uma série de entrevistas com psicólogo e assistente social. Eles me entrevistaram sozinha, depois meu marido e, em seguida, entrevistaram-nos juntos. E, por fim, os meus dois filhos. Também tivemos que fazer um curso preparatório de um dia. Além disso, passamos por um psicólogo e um assistente social, que nos visitou em nossa casa. Só após todos esses passos é que nos tornamos habilitados”.

Sobre as primeiras dificuldades depois da adoção, Lilian conta que nos primeiros dias tiveram algumas que já eram esperadas. “Meu filho estava acostumado com outro ambiente e outras pessoas. Ele tinha uma outra rotina, convivia com os irmãos biológicos. É natural que no início seja difícil e sofrido. É um processo! Fomos adquirindo a confiança dele aos poucos e o inserimos na nossa rotina de forma bem natural para que ele não sentisse tanto. Também o mantivemos em contato com os irmãos biológicos”. E, para as pessoas que desejam adotar, Lilian dá uma dica: “Sejam rápidos. Sejam ativos! Liguem no fórum e fiquem por dentro do processo e se informem da data do curso para que não fique para o próximo. Entrem nos grupos de apoio a adoção, nos grupos do WhatsApp de pré-adoção.Preparem-se para as dificuldades que possam ter, conversem com especialistas multidisciplinares (seu filho provavelmente vai precisar). E, por fim, tenha muita dedicação e não se esqueça nunca do seu porquê. Todo esforço vale muito a pena. Hoje temos o enorme privilégio de estar com nosso filho em casa”.


A cirurgiã-dentista Lilian Duran Lopes ao lado dos filhos



Dia Marcado

A Pedagoga Selma Siqueira Dinardi conta que pensou na possibilidade da adoção logo que se casou, pois a primeira tentativa de gravidez foi frustrante. “Sempre pensei que ser mãe não se resumia ao tempo da gestação, mas sim no amor, carinho e na educação que queríamos dar aos nossos dois filhos”. Ela conta que na época fizeram o cadastro nacional em São José do Rio Preto e alguns outros cadastros em comarcas, onde essas ainda não participavam do cadastro nacional. “Encontramos muita burocracia e um tempo grande de espera. As maiores dificuldades são a falta de informação, sobretudo sobre o andamento da fila de espera. Pois controlar a ansiedade não é fácil. Mas como dizem, tudo acontece no dia certo. E foi o que aconteceu com nossa família”.

Sobre o processo de adaptação, Selma explica que é normal ser estranho no princípio, pois onde antes existiam só dois, passa a ser três e depois quatro.“Os filhos não vêm com uma bula e cada fase penso que seja uma nova adaptação. Meus filhos são do coração, nunca vi e nem senti diferença no amor por não terem saído da minha barriga. Hoje em dia muitas famílias tem seus pets de estimação e os amam como filhos - e estes também não saem da barriga. Agora imagine uma criança, frágil e inocente!?Como não amar? Ainda mais com a vontade de realizar o desejo de ser mãe. Posso dizer que ser mãe é tudo de bom, passamos por todos os sentimentos, amor, insegurança, angústias e nervosismo - e isso é ser mãe. Como apregoa o ditado: ser mãe é padecer no paraíso. Amo tudo isso”.

Para os casais que desejam ter filhos a dica da Pedagoga é que persistam e nunca desistam. “Mesmo que encontrem muitas pedras pelo caminho, sigam, pois no dia em que esse sonho se realizar será uma emoção incontável. Sinto muita gratidão por ter ganhado dois filhos maravilhosos, muito melhor do que eu imaginava em meus melhores sonhos. Hoje, vendo-os crescerem e a cada dia mais independentes, começando a sonhar os seus futuros - é, sem dúvidas, algo maravilhoso”.


A Pedagoga Selma Siqueira Dinardi ao lado dos filhos